sexta-feira, 14 de setembro de 2012

DESENHO INFANTIL: LEITURA E APRENDIZAGEM



                             
                                          
                                                                                                 [1] Edilene de L. Pires
 
                 PROJETOS E PRÁTICAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL
               DESENHO INFANTIL: LEITURA E APRENDIZAGEM

 RESUMO                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   
 O presente artigo tem por objetivo apresentar bases teóricas para a formulação de uma concepção de leitura e aprendizagem através do desenho infantil, mostrando um estudo do desenvolvimento progressivo do desenho do 0 aos 12 anos de idade através da ação educativa e de desenhos coletados dos alunos da Escola Margarida Bruno de Avelar. Analisar a passagem dos rabiscos iniciais,da garatuja,para construções cada vez mais ordenadas,fazendo surgir os primeiros símbolos representando a leitura da criança.Desenhos infantis em análise permitem indicar os possíveis imbrica mentos entre essa produção das crianças e os processos mentais que constituem os sujeitos na cultura,ou seja, passamos a considerar que através do desenho as crianças têm expressado sua objetividade e favorecido o acesso à cultura da infância e de outras influências presentes no curso de suas vidas. Como medida do desenvolvimento da leitura e aprendizagem através do desenho, utilizando-se como critérios as mudanças desenvolvi mentais e funcionamentos intelectuais de cada criança, em um processo que busca elementos que estão presentes no desenho livre da criança, como esses elementos estão estruturados e o que podem informar sobre a cultura das crianças de uma determinada realidade. A sustentação teórica deste trabalho é baseada nas ideias de alguns autores como Vygotsky, Lowenfeld. Derdyk, Spadoni, entre outros.                                     

Palavras - chave: Desenho infantil, aprendizagem, leitura.  
                    
 INTRODUÇÃO
Entrar no mundo da criança nos primeiros meses de sua vida é entrar numa dimensão de comunicação na qual ainda não há palavras. Quando a criança desenha, obtém prazer, mas também é uma forma de manifestar os medos, as frustrações e todos os outros sentimentos próprios de uma criança.
            O desenho pode ser um recurso que a criança usa para canalizar as informações atuais que recebe diariamente dos meios de comunicação e da sua própria vivencia com os adultos. Os desenhos infantis são estudados, interpretados e analisados por psicólogos e educadores que os consideram reveladores da natureza emocional e psíquica da criança, no qual conheceremos no decorrer deste trabalho, que tem como objetivo o estudo progressivo do desenho infantil do 0 aos 12 anos de idade e sua função comunicativa, visto como forma peculiar de transmitir ideias, uma imagem ou signo e suas representações com as reconstruções do plano mental do que está estruturado no plano de ações.
            É fornecer subsídios para uma reflexão sobre a análise da leitura e aprendizagem do desenho infantil e a importância da sua ação educativa no processo aquisição e construção do conhecimento assim como para o desenvolvimento destes alunos. Ao analisar que no decorrer da simbolização a criança incorpora progressivamente regularidades ou códigos de representações das imagens do entorno, passamos a considerar a hipótese de que o desenho serve para imprimir o que se vê. Desse modo o estudo desenvolve novas possibilidades para o ensino da leitura e aprendizagem através de uma proposta contextualizada revelando que por meio do desenho a criança cria e recria individualmente formas expressas, integrando percepção, imaginação, reflexão e sensibilidade.
            De acordo com Derdyk (2004), teóricos como Lowenfeld, Piaget, Luquet, Vygotsky, Merèdieu, Goodnow, Porcher, Freiner, Kellog, Winnicott, Wallon e Emilia Ferreiro tiveram papel fundamental nos estudos sobre o tema. Partindo de pesquisas sobre a ideia de alguns destes teóricos e observações em sala de aula, no período compreendido entre 28 de março e 29 de abril, na escola Margarida Bruno de Avelar, onde foi realizada uma pesquisa de campo sobre o tema, em que veremos que o estudo minucioso dos desenhos infantis permite em certa forma colocar-se no plano das crianças, ver o mundo como elas os ver, aproximar-se pelo menos em parte de sua percepção das coisas e do seu mundo de imaginação e fantasia que as permeiam.

O DESENHO INFANTIL SOB A VISAO DE ALGUNS AUTORES.
      Ao desenho infantil nem sempre foi dada a devida importância. Foi a partir do século XX que os estudiosos perceberam a importância do grafismo infantil não só para a psicologia e a psicanálise, mas, para todo um contexto sociocultural em que a criança estava inserida. Muitos estudiosos realizaram trabalhos a respeito do grafismo infantil, contudo, eles afirmam que a fala e o meio social onde a criança vive são determinantes na construção desses rabiscos; influenciando a maneira e as formas como elas se realizam. Autores como, Lowenfeld (1977), Luquet (1981), Luçart (1988), Piaget (1971) Goodnow (1979), kellogg (1969), e meredieu (1979), Vygotsky (1989), dentre outros que universalizam o desenho numa perspectiva maturacionista que , segundo Lowenfeld (1977, p.18) a criança só começa a fazer seus primeiros traços, quando há um amadurecimento neuromotor,socioafetivo e cognitiva, que se dá em torno dos 18 meses de idade. Para Lowenfeld, (in Silvia, 2002) existe uma caracterização e etapas que se apoia em uma visão maturalista do desenho, onde a produção é concebida e desvinculada do meio social e da cultura. Todas as crianças passam por determinadas fases e estágios, independentes do contexto em que estão inseridas. Em uma de suas obras, Vygotsky apresenta uma abordagem baseadas em etapas que foi dividida em quatro fases sobre o desenho infantil. A perspectiva histórica cultural permite criticar e superar as concepções maturalistas a respeito do desenho porque possibilita ver o desenho como signo empregado pelo homem e constituído a partir das interações sociais (Silvia, 2002). Partindo do principio de que os desenhos são verdadeiros documentos produzidos pelas crianças e com base neles é possível conhecer muito de sua realidade vivida e perceber as crianças como falantes e criadoras de cultura.  Essa operação requer uma particular flexibilidade e, sobretudo, a capacidade de observar e escutar sem expectativas, para evitar a interpretação com os olhos dos adultos o universo infantil que, por muitos aspectos, ainda nos é estranho (Spadoni, 1996).

A IMPORTÂNCIA DO DESENHO INFANTIL.
Desenhos infantis, geralmente são desenhos de casa, árvores, flores, família, animais, nuvens, sol, paisagens entre outros. Mas, nunca paramos pra pensar e perguntar o que eles dizem? O que esses pequenos autores querem dizer e dizem sobre suas produções? A leitura do desenho infantil revela o que e como a criança enxerga o seu próprio universo.
Segundo Lowenfeld (1977), o desenho deve ser espontâneo, isento de influencias do ambiente do qual se vive e daquelas que são estimuladas. O ato de desenhar envolve a atividade criadora; é através de atividades criadora que a criança desenvolve sua própria liberdade e iniciativa, e, expressando-se como individuo reconhecera esse mesmo direito nos outros o que lhe permitirá apreciar e reconhecer as diferenças individuais (Lowenfeld 1970, p.16).
 Vygotsky (1998) considera que, da mesma forma que a linguagem, o desenho também é uma forma de representação, um signo. Ele vai buscar a gênese do sistema simbólico no gesto, no desenho, pois os considera como os precursores do processo de desenvolvimento da linguagem e escrita, da mesma forma que a linguagem, o desenho também é uma forma de representação, um signo.
            Muito antes do seu ingresso na escola, o desenho infantil já aparece na vida da criança, já que a mesma tem contato com revistas, livros, desenhos infantis na TV, entre outros recursos, fazendo com que chegue a escola com vivencias com varias formas de desenho. O desenho infantil é utilizado muitas vezes como objeto de estudos da psicologia, sendo utilizada por testes de inteligência, personalidades e avaliação de distúrbios psíquicos, detectando sentimentos como alegria, tristeza, depressão. Assim, é importante ressaltar que o desenho é uma linguagem gráfica, que tem por finalidade representar, e então, pode-se dizer que o desenho está numa fase preliminar no desenvolvimento da escrita e da linguagem propriamente dita. O desenho é um produto do que a criança vê e vivencia, mas para conseguir expor isso ela utiliza da memória, sendo esta a responsável pela capacidade de imaginação do sujeito, no caso, a criança.
            Na aprendizagem o sujeito é compreendido na sua totalidade. Ao aprender o sujeito descobre a si mesmo ao distinguir-se como um eu diferente dos demais e do mundo. Portanto, no desenho, há uma aprendizagem da realidade interagindo com a aprendizagem de si mesmo.  
-O DESENHO E O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA.
Segundo Vygotsky (1979) Os signos como forma de representação, estão intrinsecamente ligados à cultura, e entre outros sistemas, incluem a linguagem e o desenho. As operações com signos vão sendo constituídas ao longo do tempo, através das relações sociais estabelecidas, e por meio destas operações com signos, realiza-se principalmente o aprendizado de base que servirá mais adiante para a aquisição e o desenvolvimento da escrita, leitura e aprendizagem através do desenho. Através do desenho a criança se desenvolve e adquire conhecimentos, que é criado pelo imaginário mundo de fantasias, favorecendo o entrelaçamento de diferentes formas de sentir, pensar e aprender.
-A MEMÓRIA E A IMAGINAÇÃO NA PERSPECTIVA HISTÓRICO-CULTURAL.
             A memória é imprescindível no processo de aprendizagem. Ao desenvolver as ideias sobre a realidade exterior, a criança segue o mesmo caminho que desenvolve a sua linguagem e escrita, ou seja, a criança desenvolve a linguagem começando por palavras soltas, por substantivos que representam objetos concretos isolados, assim o é com a realidade externa a criança, ela percebe primeiramente objetos isolados (Vygotsky, 2001). A linguagem também é responsável pela capacidade no homem de memorizar de forma qualitativamente superior àquela que lhe é possível por suas características biológicas; a memória é uma das funções psicológicas superiores que são desenvolvidas através de sistemas de signos herdados históricos-culturalmente.
            A diferença entre memória e imaginação não consiste em atividade em si desta última, mas nos motivos que provocam essa atividade. A memória está mais vinculada com o subconsciente e constitui aspectos do comportamento que são determinados dentro da esfera da consciência (Vygotsky 1989, p.133). A imaginação não repete fielmente impressões isoladas, mas a sua relação com experiências vividas constrói novas maneiras de combinar as diversas impressões que a criança obteve no seu dia a dia. A fantasia também está relacionada com experiências reais vivenciadas pela criança. Dessa forma, a fantasia é duplamente real sendo de um lado por força do material que a constitui e do outro, por forças das emoções vinculadas a criança (Vygotsky 1987). É a partir da imaginação que a criança pode obter conhecimentos, adquirindo experiências sociais coletiva da humanidade, através da linguagem, que constitui a cultura, através do uso dos signos. A partir daí a criança vai internalizando a realidade da escrita e linguagem através do contato com os desenhos.
-EVOLUÇÃO DO DESENHO NA CRIANÇA.
            Em torno dos 18 meses são detectados os primeiros grafismos da criança. São chamados de garatujas e trata-se de um jogo motor. A criança realiza movimentos amplos, com pouco controle: no sentido horário se é destra e no sentido anti-horário se é canhota. Em torno dos 20 meses detectam-se movimentos de vaivém porque já começa a existir a independência do cotovelo. Este movimento ira afinando-se e dando lugar já ao movimento circular. Estes traços são denominados garatujas desordenadas. Em torno dos dois anos e meio observa-se que a criança já possui maior controle do punho e do movimento da pinça; isto já permite a ela realizar movimentos independentes. O ato motor ainda é independente do ato visual, porem já é capaz de seguir os movimentos de sua mão com o olhar. Estes desenhos são chamados garatujas ordenadas, porque a criança começa a dar-lhes significado. Ao chegar aos quatro anos à criança já anuncia o que vai desenhar e planeja. É chamado desenho figurado, surge à figura humana na forma de girino. Pouco a pouco seu grafismo vai afinando-se; pode desenhar as figuras geométricas e utiliza o desenho como ferramenta de comunicação. Aos sete anos é o momento máximo do desenvolvimento do desenho como jogo. Já aos oito anos o desenho da figura humana revela a assimilação completa do esquema corporal, aparecendo detalhes como o pescoço. E aos dez anos já aparece a perspectiva.
-EVOLUÇÃO DO ESQUEMA CORPORAL E A EXPRESSÃO GRÁFICA.
            A partir dos nove anos, a criança e capaz de discriminar sem erro entre esquerda e direita nos outros, e, colocada diante de outra pessoa, pode imitar corretamente as posturas propostas. Nessa fase estará também completando o conhecimento da localização, da denominação e da função das diferentes partes do corpo. Uma vez adquiridas essas noções, assim como o conceito das proporções corporais, ela conseguira desenhar a figura humana com maior fidelidade. Diz-se que, em matéria de desenho, ela está entrando agora na fase do realismo. Com efeito, todas as crianças, algumas aos nove, outras aos dez anos, procuram reproduzir a realidade com a máxima aproximação possível. Seja copiando do natural ou reproduzindo desenhos ou fotografias, elas tentam não omitir nenhum detalhe, nem mesmo os menos importantes. Quando desenha a figura humana, por exemplo, os personagens aparecem com cinto, punho, roupas estampadas etc.; por conta própria, costumam enfeitá-la com colar, pulseiras, lenço. O movimento e bem representado graficamente, e também aparecem construções de certa complexidade, assim como outros elementos de diferente significado que denotam a maturidade que o autor está alcançando em termos de desenvolvimento cognitivo. (Lowenfeld1997, p.30)
-A EVOLUÇÃO ESPONTÂNEA DO DESENHO.
            Os desenhos das crianças, em especial os que representam a figura humana, refletem com absoluta fidelidade o amadurecimento psicomotor de seus autores nas diversas etapas do desenvolvimento.  As crianças já terão conseguido certo domínio da técnica gráfica e ensaiam métodos diversos para conseguir uma representação visual melhor: copiam, decalcam e os mais dotados desenham a partir do real. Nesse mesmo período os desenhos podem ser bidimensionais ou tridimensionais. A adolescência vai colocar um fim nessa fase do desenho representativo.
             A partir dos doze anos ou treze anos pode-se dar por terminado o processo de amadurecimento do desenho infantil que, em seguida, só continuara evoluindo nos indivíduos que, por inclinação própria, continuarem cultivando a expressão plástica de forma sistemática e que receberem um aprendizado mais metódico, visando a adquirir conhecimentos artísticos específicos e técnicos mais apurados. (Lowenfeld 1997, p.116)


CONSIDERAÇÕES FINAIS

             Concluímos que a expressão gráfica infantil é como uma forma de atividade simbólica na qual o mundo intelectual-afetivo da criança se manifesta. A expressão gráfica é um movimento a mais que a criança tem para expressar-se, é mais uma dimensão de seu brincar que, às vezes, deve ser levada em conta para se avaliar como cada criança vai evoluindo; porem, também se deve deixá-la, ou seja, não se deve necessariamente analisá-la ou interpretá-la. Através deste artigo percebemos que o desenho infantil é um meio para se conhecer o desenvolvimento intelectual e afetivo da criança que a partir dos desenhos é possível determinar o tipo e o nível de pensamento. Antes dos dois anos a criança já se sente atraída por lápis e papel; com as garatujas que consegue traçar ela inicia o aprendizado de manipulação desses materiais. Entre os dois e três anos, os grafismos espontâneos que a criança esboça seguem uma ordem singular no papel com retas verticais ou horizontais; essas garatujas e essas retas correspondem ao grau de maturação nervosa, de tonicidade, afetivo, etc. A criança representa um objeto a partir da relação que ela estabelece com ele por meio de sua ação; por isso, a criança tenta desenhá-lo como ele é realmente, mas sim de forma totalmente subjetiva, ou seja, como ele o sente. A pesquisa nos forneceu grandes momentos de aprendizagem através das ideias de alguns consagrados autores como Piaget que nos diz que a criança aprende com o que faz a experiência e manipulação dos objetos permitira que a criança abstraia suas propriedades, qualidades e características e que a aprendizagem não é uma manifestação espontânea de formas isoladas, mas sim uma atividade indivisível conformada pelos processos de assimilação e acomodação; para Vygotsky, a aprendizagem supõe um caráter social determinado e um processo pelo qual as crianças se introduzem, ao envolver-se, na vida intelectual daqueles que os rodeiam. dessa maneira , a compreensão e aquisição da linguagem e aprendizagem dos conceitos por parte da criança se realiza pelo encontro com o mundo físico, e sobretudo, pela interação entre as pessoas que a rodeiam, fazendo uma aquisição da cultura, com sentido e significação,supondo uma forma de socialização.considerando o desenho como forma de pensar , observamos que o mesmo exprime a afetividade antes mesmo do conhecimento, que para a criança é uma expressão de mundo, o desenho infantil tem uma realidade própria que exprime todos os conflitos pessoais da criança, onde a mesma se libera da aparência real e se carrega do imaginário e produz a realidade que ela pensa sente e ver.

BIBLIOGRAFIA
DERDYK, Edith. Formas de Pensar o Desenho. Desenvolvimento do Grafismo Infantil-São Paulo: Scipione, 1994.
JBEILI, Chafic Adnam. Leitura do Desenho Infantil em Abordagem Psicopedagógica. Brasilia-DF. 2008.
LOWENFELD, W.Brittain, W.L.Desenvovimento da Capacidade criadora. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1977.
MORA, Estela (licenciada em Psicopedagogia na Universidad Del salvador, Buenos Aires, Argentina. Fundadora e coordenadora do Primer Centro Psicopedagogico de Argentina. Professora universitaria e de pós-graduação) Edição: Equipe cultural. Tradução: Daniela Falcão, Dra.Lea Távora Ochs, Mônica Nehr, Stella Machado. 2002-Psicopedagogia Infanto-adolescente.
PIAGET, Jean. Maria da Glória Seber. 1970. Diálogo com a Criança e o Desenvolvimento do Raciocínio. Editora: Scipione. 1985.
SILVIA, Maria Cintrada. A Constituição social do desenho da criança. Campinas. SP: Mercado das Letras: 2002
VYGOTSKY, Lev Semenovich. Pensamento e Linguagem. Nelson Jair Garcia.





[1] Acadêmico do 7º semestre do curso de Pedagogia da Universidade Paulista. Belém-pará.
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