segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Metamorfose


Lembro-me de uma manhã em que eu havia descoberto um casulo na casca de uma árvore, no momento em que a borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair.

Esperei bastante tempo, mas estava demorando muito e eu estava com pressa.Irritado, curvei-me e comecei a esquentá-lo com meu hálito.Eu o esquentava, impaciente e o milagre começou a acontecer diante de mim, a um ritmo mais rápido que o natural.


O invólucro se abriu, a borboleta saiu se arrastando e nunca hei de esquecer o horror que senti então: suas asas ainda não estavam abertas, e com todo o seu corpinho que tremia, ela se esforçava para desdobrá-las.
Curvado por cima dela, eu ajudava com meu hálito, em vão.Era necessário uma paciente maturação, o desenrolar das asas devia ser feito lentamente ao sol; agora era tarde demais.

Meu sopro obrigava a borboleta a se mostrar toda amarrotada antes do tempo. Ela se agitou desesperada e alguns segundos depois, morreu na palma da minha mão.
Aquele pequeno cadáver é, eu acho, o peso maior que tenho na consciência.Pois hoje entendo bem isto: é um pecado mortal forçar as grandes leis. Temos que nos apressar, não ficar impacientes, seguir com confiança o ritmo eterno.
                            Texto de Nikos Kazamtzaki




OBS: O ser humano deve deixar a natureza seguir o seu curso natural, a natureza é vida, e tudo que nela há tem uma razão de ser.

Postar um comentário

Postagem em destaque

Inesquecível

Tudo não passa de fragmentos em minha mente... fragmentos de momentos vividos que ficaram presos em algum lugar da minha memória.  No entant...